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Por que ninguém sabe quantos casamentos o Brasil tem por ano

Gui Loureiro
por Gui Loureiro7 min de leitura·
Por que ninguém sabe quantos casamentos o Brasil tem por ano
BLUF Resposta direta

O Brasil tem um dado oficial de casamentos (IBGE, via cartórios) e duas projeções de mercado concorrentes (ABRAFESTA e Casar.com) que divergem entre si em até 2x, sem nota metodológica pública que reconcilie os números. O setor ainda não decidiu o que está medindo, nem para quem, nem com que frequência.

Quantos casamentos por ano no Brasil, afinal?

Existe um número oficial. O IBGE contabilizou 948,9 mil casamentos civis em 2024, alta de 0,9% sobre os 940,8 mil de 2023. O instituto chega a esse dado buscando informações em mais de 8 mil cartórios do país.

Só que esse número mede uma coisa muito específica: casamento civil registrado em cartório. Não entram uniões estáveis, não entram casamentos religiosos sem oficialização civil, não entram cerimônias sem registro formal. É um recorte legal, não um recorte de mercado.

Para efeito de comparação histórica, em 2019, último ano antes da pandemia, o Brasil registrou 1 milhão de casamentos civis, com média anual de quase 1,1 milhão entre 2015 e 2019. O dado de 2024 ainda está 11,8% abaixo dessa média pré-pandemia. Ou seja: mesmo o número "duro" tem uma tendência que merece contexto, não só o valor absoluto do ano.

Registro civil
Ato formal em cartório que constitui o casamento perante a lei, distinto de cerimônia religiosa ou celebração social. É a única categoria que o IBGE mede, o que explica por que o número dele é sempre o menor entre os três citados neste texto.

O que é, afinal, o "mercado de casamentos"?

Mercado de casamentos é o conjunto de gastos de casais brasileiros com cerimônia, festa e fornecedores num ano, medido não por registro em cartório mas por projeção de faturamento de associações de classe e plataformas do setor. É um conceito de negócio, não jurídico, e por isso não existe uma fonte única que o audite como o IBGE audita o casamento civil.

Essa distinção explica a raiz da confusão. Quando alguém pergunta "quantos casamentos o Brasil tem por ano", pode estar perguntando três coisas diferentes: quantos atos civis foram registrados (IBGE), quantas cerimônias com celebração aconteceram (ABRAFESTA) ou quantas festas com fornecedor contratado geraram receita para o setor (Casar.com). Cada pergunta tem resposta diferente, e nenhuma das três está errada. Elas só não são intercambiáveis, e é aí que a maior parte das manchetes e apresentações comerciais erra ao tratar os três números como se fossem a mesma coisa.

Mercado de casamentos, quanto movimenta?

Aqui a conversa muda de personagem. Quem fala em faturamento não é o IBGE, são associações e plataformas do setor de eventos, e cada uma chega a um número diferente para o mesmo ano.

A ABRAFESTA (Associação Brasileira de Eventos) projetou para 2025 um mercado de R$ 31,7 bilhões, com 476 mil cerimônias e ticket médio de R$ 30 mil. Para 2026, a entidade revisou a metodologia e passou a falar especificamente de casamentos civis, com um volume que se aproxima muito mais da contagem do IBGE do que a projeção do ano anterior, sem publicar a memória de cálculo que sustenta essa virada de escopo.

Já o Casar.com (plataforma que reúne fornecedores do setor nupcial, antiga Casamentos.com) projetou para 2026 um mercado de R$ 32 bilhões, com 472 mil cerimônias e ticket médio de R$ 69 mil por festa. Um ano antes, para 2025, a mesma empresa projetava R$ 66 mil de ticket médio com número de cerimônias praticamente idêntico, 476 mil.

Repare no que aconteceu: o número de cerimônias ficou quase igual entre 2025 e 2026, mas o ticket médio subiu R$ 3 mil sem explicação pública sobre o que mudou na amostra ou na metodologia. Isso não significa que o dado esteja errado. Significa que não dá pra comparar ano a ano com confiança, porque não existe uma série histórica auditável por trás do número.

R$ 32 bi
É a faixa de faturamento anual que ABRAFESTA (R$ 31,7 bi em 2025) e Casar.com (R$ 32 bi em 2026) projetam para o setor nupcial brasileiro, mesmo partindo de contagens de cerimônias e tickets médios bem diferentes entre si.
ABRAFESTA (via Portal Radar) e Casar.com (via Expo News Brasil)

ABRAFESTA vs Casar.com, qual número vale?

A resposta curta é: depende do que você quer saber. Nenhum dos dois vale mais que o outro em abstrato, porque medem coisas diferentes.

A ABRAFESTA parece modelar a partir de projeções regionalizadas próximas ao universo total de casamentos civis, cobrindo separadamente Centro-Oeste, Nordeste, Norte e Sul do país. É uma tentativa de cobrir o Brasil inteiro, mas sem publicar a metodologia que permite auditar como cada região chegou ao seu número.

O Casar.com, por outro lado, declara sua base: o Informe do Setor Nupcial foi elaborado a partir de 1.400 respostas de casais que se casaram em 2024, complementado por entrevistas com mais de 7 mil casais no mesmo período. É uma pesquisa amostral com casais que, em algum momento, passaram pela plataforma ou pelo ecossistema de fornecedores que ela mapeia. Isso tende a puxar o retrato para cima em ticket médio (casamentos com festa, fornecedor contratado, planejamento formal) e para baixo em volume, porque não captura o casamento simples, só no civil, sem festa.

Nenhuma das duas publica uma nota metodológica que explique como reconciliar seu número com o do IBGE ou com o da outra. Isso não é acusação de má-fé, é constatação de que o setor ainda não padronizou nem o vocabulário: "casamento", "cerimônia" e "festa" viram sinônimos em manchete quando na verdade descrevem universos de tamanhos diferentes.

O que cada fonte realmente mede
FonteO que medeForçaLimite
IBGECasamento civil registrado em cartórioDado oficial, série histórica, cobertura nacional via cartóriosSai com quase 1 ano de defasagem, não capta uniões estáveis nem religiosas
ABRAFESTACasamentos civis (projeção regionalizada)Escopo próximo ao universo total, tenta cobrir todas as regiõesProjeção, não censo; mudou de escopo entre 2025 e 2026 sem explicar a virada
Casar.comCerimônias com fornecedores/festaDetalhe de ticket médio e comportamento do casalAmostra pequena (1.400 a 7 mil respostas) e enviesada para quem usa a plataforma
VereditoUse IBGE para tendência do paísUse ABRAFESTA/Casar.com para dimensionar o mercado de fornecedores, nunca para "quantos casamentos existem"

O que essa confusão de números diz sobre o setor?

Essa pergunta interessa mais do que o número em si. Um setor maduro em dados publica metodologia, mantém série histórica comparável e, quando revisa a forma de medir, explica por que revisou.

O que se vê aqui é o oposto. A ABRAFESTA muda o escopo da própria projeção de um ano para o outro sem nota explicando a mudança, saindo de "cerimônias" em 2025 para "casamentos civis" em 2026, dois conceitos diferentes tratados como continuidade da mesma série. O Casar.com varia o ticket médio em R$ 3 mil com volume de cerimônias praticamente estável, também sem explicar o que mudou na amostra entre um informe e outro. E nenhuma das duas fontes de mercado se posiciona explicitamente em relação ao dado do IBGE, que é o único auditável de fato, com metodologia pública e série histórica de vários anos. O resultado prático é que qualquer pessoa que precise citar "o tamanho do mercado de casamentos no Brasil" numa reunião, um pitch ou uma matéria tem que escolher uma fonte sem saber, de antemão, qual das três está mais perto da realidade, porque nenhuma delas documenta o suficiente para permitir essa checagem.

Isso é sintoma, não causa. Setores fragmentados, com muitos fornecedores pequenos e pouca infraestrutura de dado compartilhado, tendem a produzir números de "mercado" que servem mais para relações públicas e imprensa do que para decisão de investimento. Não é exclusividade do setor nupcial: acontece em qualquer mercado onde a associação de classe e a plataforma comercial são, ao mesmo tempo, quem mede e quem se beneficia do tamanho do número medido.

Quando duas fontes discordam em 2x sobre o mesmo ano e nenhuma explica por quê, o problema não é o número. É que ninguém documentou o que estava contando.
Gui LoureiroGui Loureiro

Para quem trabalha com dado e decisão, seja em marketing, seja em qualquer outra função, a lição é prática: antes de usar uma estatística de mercado em uma apresentação, pergunte o que exatamente ela mede, com que amostra, e se existe uma nota metodológica pública. Se a resposta for não, o número não é mentira, mas também não é uma verdade sozinha. É um ponto de vista com aparência de fato.

+ O que fazer
  • Checar a fonte primária e o tamanho da amostra
  • Comparar a definição do termo ("casamento" vs "cerimônia" vs "festa")
  • Preferir dado oficial (IBGE) para tendência de longo prazo
O que evitar
  • Somar números de fontes com metodologias diferentes
  • Tratar projeção de associação de classe como censo
  • Citar ticket médio sem checar se a base amostral mudou de um ano para o outro

Dúvidas sobre por que ninguém sabe quantos casamentos o brasil t

10 perguntas
O único dado oficial é do IBGE: 948,9 mil casamentos civis em 2024, alta de 0,9% sobre 2023. Esse número mede apenas casamento civil registrado em cartório e não inclui uniões estáveis nem casamentos religiosos sem registro civil.
Não exatamente. O IBGE é o mais auditável, mas mede só registro civil. ABRAFESTA e Casar.com tentam capturar dimensões de mercado (volume de festas, ticket médio) que o IBGE não mede. Cada um serve a uma pergunta diferente.
É o conjunto de gastos de casais com cerimônia, festa e fornecedores num ano, medido por projeções de associações de classe e plataformas do setor, não por registro oficial. Diferente do casamento civil, não tem fonte única auditável nem metodologia padronizada entre quem o mede.
Depende da fonte: ABRAFESTA projetou R$ 31,7 bilhões para 2025, e o Casar.com projetou cerca de R$ 32 bilhões para 2026. Os valores são próximos em faturamento total, mas partem de números de cerimônias e tickets médios bem diferentes.
Nenhum vale mais em abstrato. A ABRAFESTA projeta casamentos civis com escopo regionalizado, mais próximo do universo total. O Casar.com mede cerimônias com fornecedores contratados via sua base de casais pesquisados, um recorte mais premium e menor.
O Brasil registrou cerca de 1 milhão de casamentos civis em 2019, com média de quase 1,1 milhão entre 2015 e 2019. O dado de 2024, 948,9 mil, ainda está 11,8% abaixo dessa média pré-pandemia, segundo o IBGE.
O ticket médio projetado saltou de R$ 66 mil (2025) para R$ 69 mil (2026) com número de cerimônias praticamente igual. A empresa não publicou nota explicando a mudança de amostra ou metodologia entre os dois estudos.
Não. O levantamento do IBGE é baseado em registro civil de casamento e não contabiliza uniões estáveis, que são um instituto jurídico diferente e não passam pelo mesmo tipo de registro em cartório.
Dá, com ressalva de escopo. O Informe do Setor Nupcial do Casar.com usa base de 1.400 a 7 mil respostas de casais, útil para entender comportamento e ticket médio, mas não substitui um censo nem representa o casamento simples sem festa.
Porque revela que o setor não padronizou o que está medindo. Duas fontes discordarem em até 2x sobre o mesmo ano, sem nota metodológica que explique a diferença, é sinal de que nenhuma delas pode ser citada sozinha como "o tamanho do mercado".
Fontes
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