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O prêmio humano: por que empresas B2B voltaram a investir pesado em marca

Gui Loureiro
por Gui Loureiro7 min de leitura·
O prêmio humano: por que empresas B2B voltaram a investir pesado em marca
BLUF Resposta direta

Marca é o que sobra quando a IA já copiou tudo que dava pra copiar. Entre 2023 e 2025, o investimento em marca B2B voltou de 19% para 24% do orçamento de marketing (Forrester), e "brand awareness" virou a prioridade número 1 para 2026 (10Fold), citando a IA como motivo direto. O produto virou commodity de replicação rápida. Confiança não.

IA copia meu produto, e agora?

Essa pergunta mudou de categoria nos últimos dois anos. Não é mais "será que vão copiar", é "quando". Feature parity em produto B2B, principalmente em software, deixou de levar trimestres pra levar semanas. Qualquer gente de produto confirma isso no dia a dia: com IA generativa escrevendo código, mapeando UX concorrente e simulando funcionalidades, a defesa que o produto sozinho oferecia encolheu.

O que não encolheu foi a dificuldade de copiar confiança acumulada, relacionamento com quem decide compra, e reputação testada ao longo de anos. É aí que o orçamento de marketing B2B está voltando.

Segundo dados da Forrester citados pela The Starr Conspiracy, o investimento em marca caiu para o fundo do poço em 2023, cerca de 19% do orçamento total de marketing. Em 2025 essa fatia subiu de volta para 24%, com os maiores aumentos concentrados justamente nas empresas que cresceram pipeline acima de 20% ao ano. Quem cresce mais rápido está gastando mais em marca, não menos. Isso inverte a lógica dos últimos cinco anos, em que performance comia o orçamento de brand porque era mais fácil de atribuir.

24%
Fatia do orçamento de marketing B2B hoje destinada a marca, subindo de 19% em 2023. Os maiores aumentos vêm de empresas com pipeline crescendo acima de 20% ao ano.
Forrester, via The Starr Conspiracy

O que é marca, afinal, quando o produto já não diferencia?

Marca é o conjunto de sinais acumulados ao longo do tempo que fazem um comprador, humano ou máquina, confiar numa empresa antes mesmo de testar o produto dela. É reputação condensada em reconhecimento instantâneo. Numa era em que qualquer feature pode ser replicada em semanas, marca é a camada da oferta que engenharia reversa não alcança, porque ela não mora no produto: mora na memória de quem já teve uma boa experiência, no histórico de entregas cumpridas, nos nomes de pessoas reais que o cliente associa àquela empresa. É por isso que o orçamento está voltando pra lá. Quando o diferencial técnico dura semanas, o diferencial que dura anos vira o investimento mais racional que existe, não o mais sentimental.

Marca ainda é diferencial na era da IA?

A pergunta certa não é se marca ainda diferencia. É se alguma outra coisa diferencia tanto quanto antes. E a resposta curta é não.

A 10Fold fez um survey com 400 executivos de marketing sênior nos EUA para o "2026 Marketing Budget Blueprint". O resultado: brand awareness emergiu como a prioridade número 1 de investimento para 2026, com 69% dos entrevistados esperando aumento de orçamento nessa linha. O motivo declarado não é nostalgia de branding, é descoberta mediada por IA. Quando um comprador pergunta pra um assistente de IA "qual fornecedor de X eu devo considerar", a resposta vem de algo que já existe na cabeça do modelo: reconhecimento, menções, reputação acumulada. Produto sem marca vira um item numa lista que o modelo nem cita.

Brand awareness
Grau de reconhecimento espontâneo que um comprador, humano ou agente de IA, tem de uma marca antes de qualquer pitch comercial. Deixou de ser métrica de topo de funil decorativa pra virar pré-requisito de ser considerado numa busca mediada por IA.

Isso muda o jogo de forma concreta. Antes, marca era sobre ser lembrado por humanos. Agora é sobre ser citado por modelos que humanos consultam. São públicos diferentes com o mesmo prêmio: presença que precede a decisão.

O que defende uma empresa que a IA não copia?

A Gartner respondeu isso com um conceito novo, batizado de HX, Human Experience. Numa pesquisa com mais de mil consumidores do Reino Unido feita entre agosto e setembro de 2025, a confiança em grandes marcas caiu de 70% em 2021 para 60% em 2025. A confiança virou recurso escasso. Não é mais a atenção que falta, é a credibilidade.

HX (Human Experience)
Conceito da Gartner para o portfólio de interações humanas que uma marca mobiliza deliberadamente pra conquistar confiança. Inclui criadores, especialistas reconhecidos, executivos, funcionários e equipes de linha de frente. É o contrário de automatizar tudo que dá pra automatizar.

A Gartner prevê que, até 2030, empresas que governarem HX como sistema formal de marca vão aumentar o valor do ciclo de vida do cliente em 20% em relação a quem não gerencia ativamente os pontos de contato humanos. É uma projeção, trate como tal. Mas o diagnóstico por trás dela já é fato hoje: o que defende uma empresa da cópia da IA é o conjunto de rostos, vozes e nomes que ela coloca na frente do próprio produto.

Produto a IA copia em semanas. Confiança acumulada em dez anos de relacionamento, ela não tem como simular.
Gui LoureiroGui Loureiro

Mas usar IA na comunicação não ajuda a marca a parecer mais eficiente?

Aqui está o detalhe que inverte a intuição de quem acha que "mais IA" é sempre sinônimo de "mais moderno". Usar IA de forma visível no marketing está corroendo confiança, não construindo.

Um estudo da Fractl em parceria com o Search Engine Land, com 1.008 consumidores e 150 profissionais de marketing nos EUA, mostra que em 2025, 20% dos consumidores disseram que uso pesado de IA reduziria a confiança deles numa marca. Em 2026, esse número saltou para 39%. Entre a Geração Z, chega a 54%.

A Net Conversion, numa pesquisa com 1.500 consumidores americanos (MORE Intelligence Consumer Pulse), encontrou número parecido: 54% dos entrevistados dizem confiar menos numa marca quando percebem que a publicidade ou o marketing dela foi produzido por IA. A interpretação deles é direta: isso soa como "menos esforço, menos autenticidade, menos cuidado humano".

⊞ IA na comunicação: visível vs. invisível
CritérioIA usada como bastidor (pesquisa, dados, produtividade)IA exposta como vitrine (texto genérico, voz sintética sem curadoria)
Efeito na confiançaNeutro a positivo, ninguém percebeNegativo, 39-54% desconfiam mais
Percepção do comprador"Essa empresa é eficiente""Essa empresa terceirizou o cuidado"
VereditoUse pra acelerar o trabalho humano por trásNão deixe visível no que chega até o cliente

A lição prática: IA que acelera seu time por dentro é ativo. IA que substitui visivelmente a voz humana na frente do cliente corrói o próprio prêmio que você está tentando construir.

Como isso aparece no mercado B2B hoje?

O LinkedIn fez o "2025 B2B Marketing Benchmark: The Influence Report", com mais de 1.500 tomadores de decisão. O achado central: 93,7% dos profissionais de marketing concordam que confiança é o fator mais importante na construção de uma marca B2B bem-sucedida. Isso não é mais opinião isolada, é quase unanimidade de quem vive dentro do setor.

→ Como reconstruir o prêmio humano

Onde focar orçamento e atenção em 2026

  1. Nomear pessoas, não só produtoEspecialistas da empresa visíveis, com nome e histórico, substituem o "nosso time" genérico
  2. Documentar relacionamento, não só featureCaso de cliente com nome de quem decidiu, não só logo anônimo
  3. Medir confiança, não só reconhecimentoPesquisa de NPS qualitativa complementando métrica de brand lift tradicional
  4. Curar onde a IA apareceRevisão humana em tudo que chega ao cliente final, mesmo que a produção tenha sido assistida

Isso conecta direto com a tese de fundo: a fronteira competitiva é pra dentro. Não é sobre ter mais ferramenta de IA que o concorrente, é sobre ter mais pessoa treinada, com mais anos de experiência real, representando a marca de forma reconhecível. Idade e experiência deixam de ser custo de folha e viram o ativo que a IA não reproduz.

O orçamento de marca é a prova ou é só moda passageira?

Dados de orçamento não mentem sobre prioridade real, porque dinheiro é a forma mais honesta de dizer o que uma empresa acredita que funciona. A combinação dos três estudos, Forrester, 10Fold e LinkedIn, aponta na mesma direção: marca voltou a ser linha de investimento porque é a última variável que a IA ainda não sabe clonar em escala.

Isso não é romantismo anti-tecnologia. É cálculo frio de onde está o retorno que sobrou depois que todo mundo já automatizou o que dava pra automatizar.

Dúvidas sobre o prêmio humano: por que empresas b2b voltaram a i

9 perguntas
Aceite que feature parity hoje leva semanas, não trimestres. A resposta não é parar de inovar em produto, é parar de depender só do produto como diferencial. Invista no que não se copia: relacionamento, reputação acumulada e pessoas reconhecíveis por trás da marca.
Marca é o conjunto de sinais acumulados ao longo do tempo (reputação, entregas cumpridas, pessoas reconhecíveis) que fazem um comprador confiar numa empresa antes de testar o produto. É a camada da oferta que a IA não replica por engenharia reversa.
Sim, e mais que antes. Dados da Forrester mostram orçamento de marca B2B subindo de 19% para 24% entre 2023 e 2025, com os maiores aumentos em empresas de alto crescimento. A 10Fold encontrou brand awareness como prioridade número 1 para 2026, citando a IA como motivo direto.
Confiança acumulada e as pessoas que a representam. A Gartner batizou isso de HX (Human Experience): o portfólio de interações humanas que a marca mobiliza, como especialistas, executivos e equipes de linha de frente, pra sustentar confiança que modelo nenhum reproduz em escala.
Quando fica visível, sim. Um estudo da Fractl com Search Engine Land mostra que a parcela de consumidores que confia menos numa marca por uso pesado de IA subiu de 20% em 2025 para 39% em 2026, chegando a 54% entre a Geração Z.
Porque atenção sempre foi escassa, mas confiança era dada como certa. A Gartner mediu queda de 70% para 60% na confiança do consumidor em grandes marcas entre 2021 e 2025. O recurso que ficou raro não é mais visibilidade, é crédito.
Praticamente. No "2025 B2B Marketing Benchmark" do LinkedIn, com mais de 1.500 tomadores de decisão, 93,7% dos profissionais de marketing concordam que confiança é o fator mais importante pra construir uma marca B2B bem-sucedida.
Pode, desde que a IA fique nos bastidores: pesquisa, estrutura, produtividade do time. O problema aparece quando o cliente final percebe que o texto, a voz ou a imagem foi gerada sem curadoria humana visível. Aí a confiança cai, segundo a Net Conversion, em 54% dos casos.
Pouco provável, porque está ligado a uma mudança estrutural: descoberta mediada por IA favorece quem já tem reconhecimento prévio. Enquanto assistentes de IA responderem perguntas de compra citando marcas conhecidas, reconhecimento vai continuar sendo pré-requisito, não luxo.
Fontes
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